

• Comissionamento passa a depender também do lucro do banco
• Novo modelo de avaliação amplia número de indicadores
• Sistema de níveis pode reduzir valores recebidos
• Representação dos trabalhadores apresentou propostas de mudanças
• CEE solicitou reunião específica com a Caixa para tratar do tema
As mudanças implementadas pela Caixa no regulamento do programa de comissionamento Super Caixa 2026 acenderam um alerta entre as entidades representativas dos empregados. A análise feita pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), assessorada pela Comissão Executiva dos Empregados (CEE/Caixa), aponta que as alterações ampliam condicionantes para o pagamento da comissão, aumentam a complexidade do sistema de metas e podem dificultar o acesso dos trabalhadores aos valores previstos no programa.
“A Caixa implementou este programa sem qualquer debate ou participação da representação dos trabalhadores. Se houve qualquer conversa sobre o programa antes de o mesmo ser implementado, não foi com qualquer entidade ligada à Contraf-CUT”, lembrou o coordenador da Comissão Executiva dos Empregados (CEE), da Caixa, Felipe Pacheco. A CEE representa a Contraf-CUT nas negociações com a Caixa.
Felipe lembrou ainda que, desde quando o banco anunciou o Super Caixa, em meados de agosto de 2025, a representação das empregadas e dos empregados fez diversos questionamentos, alertou que os empregados seriam prejudicados e apresentou diversas propostas de melhorias. “A Caixa conseguiu piorar ainda mais o que já estava ruim. Criando mais dificuldades para que os empregados recebam a comissão”, disse.
Entre as principais mudanças está a inclusão de uma nova condição para o comissionamento: o pagamento passa a depender também do lucro líquido contábil da Caixa no semestre. Antes, a comissão estava diretamente relacionada ao cumprimento das metas estabelecidas para as unidades e equipes.
Outro ponto destacado pelas entidades é a adoção de um novo modelo de avaliação baseado em múltiplas dimensões de desempenho, ampliando o número de indicadores utilizados para medir resultados. Também foi introduzido um modelo escalonado de comissionamento, com cinco níveis de pagamento, o que pode reduzir o valor final recebido pelos trabalhadores quando os níveis mais altos não são atingidos.
Além disso, o regulamento altera critérios operacionais importantes, como o aumento do tempo mínimo considerado para apuração do resultado em uma unidade e mudanças na forma de cálculo do teto da comissão.
Para o coordenador da CEE/Caixa, as mudanças reforçam um modelo de gestão cada vez mais baseado em metas e pressão por resultados. “O que vemos nesse novo regulamento é o aumento das condicionantes para o pagamento da comissão e uma complexidade maior no sistema de avaliação. Isso pode gerar um descolamento entre o esforço dos trabalhadores e o reconhecimento pelo resultado alcançado”, afirmou Felipe.
Segundo ele, a introdução da condicionante de lucro institucional é particularmente preocupante. “Mesmo que as equipes cumpram ou superem as metas nas unidades, o pagamento da comissão passa a depender do resultado global do banco. Ou seja, um fator que não está diretamente ligado ao desempenho dos trabalhadores pode impedir que eles recebam pelo serviço que realizaram”, explicou.
A representante das empregadas e empregados no Conselho de Administração da Caixa, Fabiana Uehara, informou que a representação dos trabalhadores apresentou sugestões para tornar o programa mais transparente e equilibrado.
Entre as propostas defendidas pela conselheira e pelas entidades estão:
• Retirada da condicionante de lucro para pagamento da comissão;
• Simplificação dos critérios e indicadores utilizados na avaliação;
• Manutenção de regras que não prejudiquem trabalhadores que mudam de função ou unidade durante o período;
• Maior transparência sobre o orçamento total destinado ao comissionamento.
Para Fabiana, a valorização dos empregados precisa estar no centro das políticas de reconhecimento do banco. “Quem constrói o resultado da Caixa no dia a dia são as empregadas e os empregados. Na rede de atendimento, essa cobrança é ainda maior. Por isso defendemos regras claras, previsíveis e que reconheçam de fato o esforço individual e coletivo. O comissionamento precisa considerar não apenas quem realiza a venda, mas também quem garante o atendimento, a orientação ao cliente e a qualidade da entrega”, afirmou.
Ela destacou ainda que programas de incentivo não podem se transformar apenas em instrumentos de intensificação da pressão comercial. “Se a CAIXA afirma adotar o ‘clientecentrismo’ e a principalidade como diretrizes estratégicas, precisa antes olhar para a jornada do empregado. Isso envolve sistemas adequados, processos que não gerem retrabalho, metas equilibradas e condições reais de trabalho. Um programa de premiação deve ser um fator de engajamento e reconhecimento — e não um elemento adicional de desmotivação, como infelizmente vem ocorrendo”, ressaltou.
A discussão sobre o programa também foi levantada pela representação dos trabalhadores na reunião realizada entre a CEE/Caixa e o banco no dia 31 de março de 2026, quando as entidades trataram de diferentes temas relacionados às condições de trabalho e às políticas de gestão de pessoas, principalmente questões relacionadas ao combate ao assédio e à violência contra as empregadas da Caixa.
Na ocasião, os representantes dos empregados reforçaram a necessidade de discutir os impactos das mudanças no programa e defenderam ajustes que garantam maior justiça e transparência nos critérios adotados.
Como encaminhamento, a CEE solicitou à Caixa a realização de uma reunião específica para tratar do Super Caixa. A proposta é para que reunião ocorra já na próxima semana, no dia 8 de abril, com o objetivo de debater as mudanças no regulamento e apresentar as propostas da representação dos trabalhadores.
Para a CEE/Caixa, que assessora Contraf-CUT nas negociações com a Caixa, é fundamental que os programas de reconhecimento adotados pelo banco valorizem efetivamente o trabalho das equipes e não ampliem a pressão por metas sem assegurar contrapartidas adequadas aos trabalhadores.
Publicado em: 06/04/2026 / 08:46:08